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A Bruxa ( The Witch ) 2015

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Ano: 2015

 

Direção: Robert Eggers

 

Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie

 

 

 

Como A Bruxa é um filme que gera uma infinidade de discussão, este texto, ao contrário dos postados no site, contém spoilers. Não teria como destrinchar o filme sem pontuar algumas cenas específicas do enredo. Portanto, caso não tenha visto o filme, é aconselhável que pare de ler por aqui.

Antes de qualquer discussão sobre o filme A Bruxa, é preciso conceitua-lo historicamente para ser justo com o que ele pretende debater.

A história se passa em 1630, algumas décadas antes da histeria coletiva em torno da “bruxaria” que ocorreu em Salem, quando duas crianças serviram de testemunhas de acusação para um dos julgamentos mais vergonhosos da História. Mais de 100 pessoas foram presas e cerca de 20 pessoas foram executadas acusadas de bruxaria. No filme A Bruxa, também são duas crianças que acusam a própria irmã de bruxaria, coincidentemente ou não. O ambiente do caso americano com o filme também tem um lugar comum: um vilarejo sombrio, habitado por novos colonos e rodeado por florestas cheias de estórias.

O enredo de A Bruxa se passa antes do iluminismo no século XVIII, durante um período em que a Igreja Católica possuía um enorme controle social. Logo no início do filme, já vemos a família sendo expulsa da colônia por “desonrar a Igreja”. Percebemos que o pai já tem algumas inclinações iluministas, pode-se dizer assim. Outro ponto que o filme vai debater, exaustivamente, é submeter toda a condição humana a vontade divina. Se uma colheita é ruim, isso é culpa dos pecados de quem plantou. Se a pessoa sentiu desejo, isso também é culpa da falta de oração, alheio a qualquer alteração hormonal que a puberdade possa trazer.

A Bruxa é um filme que nos coloca na intimidade de uma família miserável que acaba de ser jogada ao “Deus dará” após a expulsão da colônia em que vivia. A coisa piora quando o bebê daquele núcleo familiar desaparece, supostamente sequestrado por uma bruxa que vive na floresta. A partir daí as relações entre eles começam a dissolver, contaminadas por desconfianças, acusações e religiosidade.

Neste momento do filme, entendemos que ele irá mexer com muitos arquétipos que habitam o inconsciente coletivo humano. O limite no qual a família não pode ultrapassar é a floresta, local que habita metade dos contos infantis como algo perigoso/proibido. Outro estereótipo é o da própria bruxa, que seria uma “manifestação do mal” disposta a causar prejuízo contra o ser humano.

Esta simbologia estará presente durante todo o filme, o que o torna uma perfeita mistura de drama com terror clássico. Teremos a personificação do demônio como o medieval Baphomet, divindade habitualmente ligada ao paganismo. Uma de suas representações mais tradicionais o retrata com a cabeça de um bode preto. Quando os templários foram condenados pela Igreja, acusados de diversas heresias, uma delas era adoração ao diabo na figura de Baphomet,

A maçã, que sempre foi um símbolo do pecado, é vomitada pelo garoto que acaba de ser “seduzido” pela bruxa, após sofrer inúmeras tentações por observar o busto da irmã. Vale ressaltar que, antes de encontrar a Bruxa em pessoa, o menino mentiu para a mãe dizendo que achava ter visto uma macieira na floresta.

O famoso “pacto” com o Diabo também é apontado aqui através de um livro no qual se firma, de fato, um contrato social com o capeta, na intenção de conseguir uma vida melhor ou provar delícias.

O pai de Thomasin, que desde o início sempre coloca o racionalismo em contraponto com a religião, sempre se mostrou a pessoa mais equilibrada da família. Isso explica o porquê de ser o único dos 7 membros da família que sofre um ataque diretamente do próprio bode, no caso, do demônio em si.

Por que foi importante ressaltar tudo isso? Porque A Bruxa não é um filme fácil que vai entregar uma história pronta e óbvia. Visivelmente o filme tem o intuito de admitir muitas interpretações e abrir a discussão sobre religiosidade X modo de vida. A simbologia sempre presente no filme é o que vai instigar cada espectador de acordo com seu ponto de vista pessoal sobre cada questão.

Há uma notável decepção do público em relação a expectativa que o filme gerou. O medo não é explícito, mas sim causado pela angústia de acompanhar o drama de uma família pecadora em uma época em que isso poderia levar ao extremo. O melhor do filme é sem dúvida o clima sombrio durante toda a projeção. Sentimos sempre que algo ruim está para acontecer e o comportamento da família, devido a religiosidade excessiva, sempre é imprevisível e assustador.

Vale lembrar que o gênero terror talvez seja o mais subdividido em categorias. Quem esperava sangue, se decepcionou em não encontrar um filme que flerta com o gore. Quem esperava assassinatos em série, se decepcionou em não encontrar um filme slasher. Quem esperava tomar sustos em série, não vai encontrar jump scares gratuitos. Quem esperava ver grandes cenas de possessão demoníaca, verá apenas algumas poucas ( mas ótimas! ) cenas sobre o assunto.

Tecnicamente o filme é admirável. A fotografia trata cada frame como se estivéssemos vendo um quadro medieval. O elenco é soberbo, difícil apontar quem cumpre melhor o devido papel. A trilha sonora erra algumas vezes, mas combina com a maior parte do filme. A Direção de Arte nos coloca com realismo no período retratado.

O diretor Robert Eggers, premiado como Melhor Diretor em Sundance por A Bruxa, consegue abordar todas as questões aqui apontadas e conduzi-las com maestria, deixando o filme com dois viés opostos: ele pode parecer uma severa crítica religiosa mas também pode ser interpretado como um filme moralista, no qual o afastamento de Deus nos leva ao “mal”.

Não daria para terminar a resenha sem falar de uma cena instigante. A frase “eu vou guiar a sua mão”, dita pelo mal personificado quando faz com que Thomasin assine o livro, parece uma síntese final de todo o filme. Quando não há a Razão e a pessoa está mergulhada no obscurantismo ( ignorância ), parece que há uma facilidade para o mal se espalhar e guiar. Neste terreno fértil para se propagar, o maior dos medos deixa de ser o próprio demônio e se torna um entidade ainda mais assustadora que A Bruxa retrata com cruel precisão: nós mesmos.

NOTA DO EDITOR: 8,0

 

CENAS MEMORÁVEIS: ( Podem conter spoiler )

  • Difícil esquecer do personagem Black Phillip.

 

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TRAILER:

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One Comment

  • Silvia
    Posted 11 de maio de 2016 at 22:01 | Permalink

    Também gostei do filme…tinha escutado tantas críticas negativas que estava bem sem expectativa…
    Mas não senti aquele medo clássico que sinto quando vejo outros filmes de terror…acho que foi isso que gerou a reação negativa do público.
    Ótima crítica!

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